Li ontem num livro, que relata as memórias de uma mãe de uma criança especial, "Memórias de uma Mãe sobre o seu Filho Autista", de J.McDonnell:
"...o Paul faz-me lembrar a velha lenda irlandesa do changeling, a criança encantada deixada no berço no lugar da criança verdadeira, que era roubada. Paul parece uma criança transcendental, que passou para este mundo vinda de um outro género de existência. A criança do changeling foi sempre muito bonita, perfeita sob todos os aspectos, mas de alguma maneira separada. O Paul é tão bonito, tão perfeito e, no entanto, não parece estar connosco, ser nosso."

Nós temos um "Paul" na nossa sala.
É lindo, meigo, ternurento, exigente no trato.
Brinca com as peças do Scrabble, adora nadar na praia e detesta crachás e autocolantes colados na roupa.
Não gosta das brincadeiras ruidosas das outras crianças, vivendo no seu mundo de felicidade e paz. Quando está alegre, bate palmas e faz o maior sorriso do mundo.
No nosso "Paul" chama-se João, mas também podia chamar-se Pedro ou Miguel ou Beatriz. É encantador e sofre de perturbação do espectro do autismo.
No início do ano lectivo era diferente de nós e isso amedontrava-nos. Agora, é diferente de nós e nós damos graças pela ternura e pela riqueza que trouxe à nossa vida. Cada uma das crianças da nossa turma tem afecto e carinho por ele.
Ele cativou-nos e nós cativámo-lo.
Somos eternamente responsáveis por ele.